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terça-feira, 30 de agosto de 2016

Bicho Estranho

Ah, literatura. É tão mais fácil falar de futebol e cerveja.

Literatura é um bicho estranho, embora me seja familiar desde pequeno. Tive a chance de ganhar, no aniversário de cinco anos (a memória é boa, mas não tão boa assim), provavelmente meu primeiro livro, Giroflê Giroflá. De lá pra cá os livros foram se acumulando muito, e tem de (quase) todo tipo no meu escritório/depósito. As palavras me interessaram desde antes. Por isso uma amiga de minha mãe decidiu me presentear com o livro da Cecília Meireles. Decisão ousada, temos de reconhecer.

Isso funcionou comigo. Não posso dizer - ninguém poderia, em sã consciência - que literatura é um bem para todos. Pode-se dizer que seja um bem disponível para todos, porém não essencial. Infelizmente não é essencial. Por mais que você se esforce em passar esse hábito a uma criança ou a um adolescente, não haverá milagres. É de gosto de cada um. Tem gente que não gosta de livros de drama, mas adora uma ficção fantástica. Tem gente que mal lê a página de esportes e a de crimes no jornal. Tem gente que só lê a página de esportes e a de crimes no jornal. Tem gente que detesta Paulo Coelho e idolatra George Bernard Shaw. Tem gente que só lê o que é moda ou o que possui muito apelo comercial. Tem gente que nunca entrou numa livraria.

Literatura é um bicho estranho até mesmo pra mim, que converso com ela toda semana, todo dia. Aqueles olhinhos matreiros, dissimulados, tentando se esconder atrás de uma aparência inofensiva, no meio dos livros amontoados. Já me falaram que literatura é um troço sagrado. Literatura é tão sagrada quanto uma chave de fenda dentro da caixa de ferramentas. Literatura não pode ser sagrada, senão perde toda a graça. Quem olha para um livro e enxerga algo transcendental tem sérios problemas de prioridade. Literatura é um meio de se atingir alguma coisa. Assim como religião. Assim como macarrão com molho. Como uma boa cantada pra cima daquela mulher gostosa no bar. Literatura não possui vaidade. Vaidoso (e panaca, por consequência) é o intelectual que pensa que sabe algo de concreto, que cospe citações e autores consagrados. A literatura não tá nem aí pra você; você é quem tem que se acostumar com ela. E isso deve acontecer por vontade própria.

Por essas e outras é que acho mais fácil falar de futebol e cerveja. São assuntos simples, corriqueiros, dispensam grandes retoques de pensamento. Ou se gosta de Heineken ou de Brahma. Ou se torce pro Olaria ou pro Manchester United. Faz-se comparações de gosto e de estratégias de defesa. Pronto, acabou. Passa-se ao próximo assunto, política econômica ou o último filme pornô da Flower Tucci, tanto faz. Mas literatura se desenvolve dentro de cada um a sua maneira. Não adianta forçar. Ensina-se o que é, dá-se alguns exemplos, depois vamos ver no que dá. Incentivar a leitura, sim, impor qual seria a mais adequada é um problema. E por isso jamais será unanimidade em qualquer lugar.

Quase metade dos brasileiros não costuma ler, 30% nunca comprou um livro sequer. Muitos dizem que não leem porque livro é caro no orçamento familiar, ou que não encontram tempo: duas das desculpas mais esfarrapadas possíveis. Leitura e literatura são acessíveis a praticamente todos que possuem pelo menos um celular. Brasileiro é preguiçoso, mesmo. Brasileiro prefere futebol e cerveja. Alguns vão começar a ser fãs da Flower Tucci, agora que eu falei nela.

Mas literatura, ah, literatura é outra coisa. Não sei quanto a você, mas é meu enorme bicho estranho de estimação.