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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Unhas, Um Monte de Unhas

Tem coisas que nos incomodam mais do que outras. Todo mundo está de acordo com isso. Só que eu não consigo escrever muito bem de unhas compridas. Parece que minhas forças, minha disposição diminui com o aumento das minhas unhas. Algum tipo de proporção inversa.

É uma besteira, sei bem. Mas qualquer pessoa possui algo de besta consigo mesma. Existem aqueles que se incomodam demais com o fato de o bife não estar bem vermelho, por falta de colorau. Meu pai é um desses. É outra besteira, colorau nem tem gosto que se sinta direito na língua, mas ele não admite bife no seu prato sem aquele vermelho suculentamente chamativo. Eu não já não faço questão de algo desse tipo.

Mas ter as unhas compridas é algo que me deixa minado no meu trabalho de escrevinhar através de teclas. Neste momento falo disso porque me esqueci de cortar as unhas das mãos, e agora está sendo meio sufocante digitar essas palavras. Notei esse pequeno empecilho outro dia, mais especificamente anteontem, enquanto escrevia um novo conto. As primeiras oitocentas palavras saíram, mas demoraram a se estruturar da maneira como eu queria. Já escrevi histórias bem mais rápido.

Unhas compridas são mais úteis quando são inúteis. Pegou o espírito da coisa? Quando não passam de mero acessório estético. A não ser pelo fato de, em você sendo um violonista clássico, que necessita de unhas compridas em uma das mãos para dedilhar as cordas do instrumento, enquanto a outra, que produz as notas e os acordes, deve apresentar unhas bem cortadas. Penso que este seria o único fator realmente útil para se cultivar unhas mais longas.

Mulheres, não sei bem se por gosto pessoal ou por imposição social (a maioria, eu diria, segue a imposição), são usuárias contumazes das unhas compridas: ao natural, pintadas com esmaltes de cores diversas, com base transparente, com desenhos personalizados, roídas, lixadas, com tinta descascando, sensuais, recatadas, até mesmo depravadas. Vale de tudo, basta olhar pelas ruas, dentro do supermercado ou do restaurante. Se é que você mesma não costuma seguir algum desses estilos. Talvez todos eles. Variando de semana a semana, de humor a humor.

Eu, quando estudei por um tempo violão clássico, sentia a obrigação de ter as unhas compridas da mão direita. Sempre fui meio relapso para treinar as escalas, os acordes, por isso as unhas longas não duraram muito. Além do mais, era muito estranho manter unhas daquele tamanho em apenas uma das mãos. Eu me sentia um ser bastante bizarro. Ainda me sinto, mas é por outras razões, não vem ao caso. E meu violão está, no presente momento, sistematicamente encostado na parede.

Daí que me acometeu de sentir um incômodo quando as unhas crescem demais. Certo, preciso me policiar quanto a isso. E não, não tenho certeza de que o incômodo surgiu das práticas com o violão. Apenas digo que escrever, para mim, implica ter as unhas bem aparadas. Nada de excessos. Puramente o básico. Como o ato de revisar e revisar e terminar por cortar o supérfluo numa frase e num texto inteiro.

Quando voltar para casa, a primeira coisa a fazer será entrar no banheiro e pegar a tesoura de unha. Não uso cortador de unha. Não nutro simpatias por cortadores de unha. O que também, aqui, não vem ao caso.