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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Especial Para Cigarros

(publicado no jornal eletrônico O Parazão Hebdo)

— tenho que ir pra casa, baby. tá ficando tarde.

Ela fez cara de muxoxo.

— então tá. mas vai com cuidado, coração.

Deu uma última amaciada nas ancas fartas da Lívia, que saiu dando risinhos dentro da minissaia e se fazendo de bem-comportada. Safada essa daí, pensou enquanto procurava as chaves. Ainda vou pegar de jeito.

Tinha de chegar logo em casa, onde Marinalda o esperava. Provavelmente com pouco bom humor. Ele tinha dito que chegaria antes da meia-noite, e precisava de pelo menos meia hora até chegar ao conjunto residencial. Um dia desses deixo a Marinalda e parto pra outra. Mulher azeda, não sei que bicho mordeu ela nesses últimos anos. Tem várias outras por aí. A Lívia é jeitosinha e, pelo visto, gosta de um esquema bem bolado. Preciso me divertir, todo mundo precisa de vez em quando. A Marinalda é que escolheu usar aquela cara de merda quando acorda e quando vai se deitar.

Decidiu que deveria acelerar o máximo que pudesse dentro do bom senso. Bem lá no fundo, sabia que havia um serzinho da consciência procurando uma brecha no meio daquele cérebro embotado pra lhe dizer que o bom senso ficara em casa, antes dele sair pro trabalho pela manhã.

— que se dane.

Quase nenhum carro à vista. Pôde até mesmo cortar alguns sinais vermelhos, assim economizava tempo. Destino: Conjunto Stelio Maroja, Ananindeua. Muito chão pra correr. Iria pela Avenida Centenário, como sempre fazia. Àquela hora não adiantava inventar rotas.

Mais um sinal vermelho cortado, enquanto pensava na vida, ou pior, em Marinalda. Aquela mulher vai me fazer criar cabelos brancos, já tô até vendo. E olha que não tivemos filhos. Melhor assim, já imaginou o tamanho da encrenca? Tudo, menos filhos com a Mari. As trepadas eram boas no começo, mas então ela quis me mudar. Disse isso na minha cara: eu vou te mudar, pra tu seres o homem que tens que ser. Que diabo de papo era aquele? Ah, pra cima de mim, não.

Aos poucos foi relaxando. Deve ter relaxado até demais.

Não soube explicar os detalhes. Quando abriu os olhos de novo, o carro já começava a raspar a mureta do canteiro da Centenário. O veículo subiu os pneus do asfalto e a capotagem se deu. Girou seis vezes antes de parar de ponta-cabeça.

Incrivelmente saiu sem qualquer arranhão. Estava tonto, chegou a cair de bunda, mas se escorou na lataria e se pôs de pé. Procurava processar o ocorrido e ouviu ao longe um zunzunzum. Pessoas acendendo as luzes de casebres, juntando coisas ao longo da via. Gente gritando e se amontoando tal qual moscas em carniça fresca.

— carro capotado, galera. barricada, bora fazer barricada.

— taca fogo nos pneus.

Uma viatura encostou alguns minutos depois. Um policial se aproximou para averiguar o estrago do acidente.

— o senhor está bem?

Ele fez sinal de positivo, enquanto o oficial lhe fazia algumas perguntas de praxe.

— qual o seu nome, senhor?

— francisco vieira.

— e essa turma fazendo protesto aqui ao lado?

— não faço a menor ideia. agora fazem isso por qualquer motivo. virou moda.

O policial coçou o queixo e logo liberou Francisco, que passou seus dados e foi procurar um táxi.

Quem sabe, chegando detonado em casa, Marinalda lhe desse um desconto, talvez lhe fizesse uns carinhos. Só que a imagem que vinha à mente era das ancas da Lívia. Aquela safada.