Marcadores

sábado, 3 de outubro de 2015

Bolinhas de Gude

Infância é um negócio difícil para os outros. Pra molecada, não é nada complicado. Acordar, comer, brincar, ir à escola, brincar, comer, nos intervalos ir ao banheiro lavar a cara e fazer cocô. Mas às vezes, haja paciência.

— não senta aí, garoto.

— por que não?

— porque eu tô limpando o sofá, num tá vendo?

— mas por que precisa limpar de novo?

— porque sim.

— por quê, porque sim?

— menino, vai procurar teus amiguinhos, vai.

Isso foi a infância de muita gente, de procurar os amiguinhos, principalmente antes dos anos 2000. Atualmente, se falar pruma mocinha ou prum mocinho que eles têm que sair pra rua, é bem capaz de eles olharem para você como se olhassem um alienígena com dezenove olhos, trinta braços e vinte e sete bocas. Tudo pintado de marrom-vômito purpurinado. Hoje, bom, hoje praticamente não existe vida social pra qualquer espécime infantil que não seja a virtual, através de teclas e telas de alta definição. E tem gente que ainda se assusta ao ver crianças com quadro de obesidade mórbida e diabetes tão cedo.

Como a infância de hoje é uma chatice só, vamos falar dos anos incríveis: praticamente qualquer um antes da virada do milênio.

O Diogo, uma vez, atendendo ao pedido dos pais de ir brincar fora de casa e deixá-los em paz por alguns minutos, foi procurar o que fazer. Não encontrou nenhum dos amiguinhos do quarteirão, então ficou chutando algumas latas vazias que encontrara perto de uma vala.

Aliás, um aviso rápido: se você pensa que deixar seus filhos dentro de casa, com medo de tudo, resolve a vida deles, pense então por que será que a maioria dos pirralhos da última geração desenvolvem alergias e doenças tão cedo. Falta de joelhos ralados e um pouco de valas, é o que eu sempre digo.

O Diogo chutava as latas, mãos nos bolsos do short, e já imaginava o que iria montar com elas — um caminhão de quatro eixos com barbante, quem sabe, ou talvez arrumasse umas bombinhas pra estourar dentro delas, fazendo-as de foguetes customizados — quando avistou três, não, quatro bolinhas de gude ali perto. Teve que olhar pros lados e se certificar de que não era uma peça que estavam lhe pregando. Não se achava bolinhas de gude assim, dando sopa ao lado de uma vala. Os campeonatos da rua eram muito disputados, todos cuidavam bem das suas bolinhas.

Ou ele tinha conseguido a sorte grande, ou foi uma tragédia para algum moleque da vizinhança.

Não quis saber de moleque nenhum. Pegou as preciosidades do chão e saiu em disparada. Começou a gritar no meio do caminho pela mãe e pelo pai, que saíram com certa apreensão de dentro da casa.

— mas o que foi, menino?

— se machucou, tá doendo onde?

— mãe, olha só o que eu achei.

O garoto estendeu a mão triunfante. Os dois se aproximaram, e logo em seguida o pai começou a rir. O Diogo não entendeu, mas ainda mostrava um sorriso de contentamento.

— meu filho.

— quê, mãe? não é legal?

— isso são bolas de bosta de cachorro.

— eu vou brincar com elas agora mesmo.

— garoto, me escuta. isso são bolas de bosta de cachorro. joga fora e vai lavar as mãos.

O Diogo deixou cair suas bolinhas de gude e saiu chorando, com a mão estendida o máximo possível do corpo, como que contaminada pela peste. E aquele cheiro, ah, aquele cheiro entre os dedos.

Falta muito mais bosta de cachorro pras crianças de hoje, disso não tenho dúvidas.