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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Ensaio de Abjeção

um sujeito do nada vem com um sorriso
uma garrafa na mão e diz que
vai se sentar conosco à mesa. até aí
tudo bem.
começa a falar de um evento autossustentável que
programou numa universidade
coisa e tal
uma história qualquer de cultura
coisa e tal

pede nossos contatos porque
somos escritores
daí nos pergunta se
somos católicos. não entendemos
a pergunta e respondemos que
somos agnósticos

ao que ele rebate revelando que
é rosa-cruz
coisa e tal e nós num exercício mental
“mas que merda de papo é esse?”
“quem é o figura?”
“isso não parece que vai acabar bem.”

o sujeitinho pega meu maço de cigarros da mesa
sem pedir e pega um cigarro e o meu isqueiro
continua sem proferir bosta alguma enquanto comete
o ato
observamos a palhaçada pra ver até
onde iria dar e o sujeito que agora
já passou
a ser um idiota na nossa opinião
destila petulância e ares superiores porque

é um bosta de um rosa-cruz

nos mostra alguns gestos secretos
fala sobre o cosmos e a importância da sua
posição naquele grupo fechado. continua

sendo um bosta e um idiota de um rosa-cruz.

observamos ele pegar outro cigarro
do maço
eu fico bestificado
meu amigo se irrita e dispara
“cê não vai sequer pedir por favor?”
o outro me esgarça um sorrisinho cínico e diz
“obrigado”
só isso imagine
“obrigado”

pergunta se pode nos telefonar no
dia seguinte

meu amigo já está cuspindo fúria
eu respondo que tudo bem
sabendo que não atenderia
a ligação porque
não atendo números desconhecidos. depois
meu amigo comentou que minha
reação foi muito
educada. penso que estava cansado.

fomos
a outro lugar para beber e criar uma história sobre
miséria violência perdão.

passamos num supermercado aberto
após a meia-noite
na entrada um homem muito
magro boné sujo
pediu algo pra comer e tinha
uns olhos abatidos
uma barba abatida
umas unhas abatidas
enquanto só queríamos
comprar mais cigarros.

cigarro ali não tinha mas
o homem
do boné sujo
das unhas abatidas
ganhou
um salgado de calabresa e
uma torta de frango suculenta.

porque bem lá no fundo que vá
à merda o papo e
o garoto
da rosa-cruz.