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terça-feira, 30 de agosto de 2016

Bicho Estranho

Ah, literatura. É tão mais fácil falar de futebol e cerveja.

Literatura é um bicho estranho, embora me seja familiar desde pequeno. Tive a chance de ganhar, no aniversário de cinco anos (a memória é boa, mas não tão boa assim), provavelmente meu primeiro livro, Giroflê Giroflá. De lá pra cá os livros foram se acumulando muito, e tem de (quase) todo tipo no meu escritório/depósito. As palavras me interessaram desde antes. Por isso uma amiga de minha mãe decidiu me presentear com o livro da Cecília Meireles. Decisão ousada, temos de reconhecer.

Isso funcionou comigo. Não posso dizer - ninguém poderia, em sã consciência - que literatura é um bem para todos. Pode-se dizer que seja um bem disponível para todos, porém não essencial. Infelizmente não é essencial. Por mais que você se esforce em passar esse hábito a uma criança ou a um adolescente, não haverá milagres. É de gosto de cada um. Tem gente que não gosta de livros de drama, mas adora uma ficção fantástica. Tem gente que mal lê a página de esportes e a de crimes no jornal. Tem gente que só lê a página de esportes e a de crimes no jornal. Tem gente que detesta Paulo Coelho e idolatra George Bernard Shaw. Tem gente que só lê o que é moda ou o que possui muito apelo comercial. Tem gente que nunca entrou numa livraria.

Literatura é um bicho estranho até mesmo pra mim, que converso com ela toda semana, todo dia. Aqueles olhinhos matreiros, dissimulados, tentando se esconder atrás de uma aparência inofensiva, no meio dos livros amontoados. Já me falaram que literatura é um troço sagrado. Literatura é tão sagrada quanto uma chave de fenda dentro da caixa de ferramentas. Literatura não pode ser sagrada, senão perde toda a graça. Quem olha para um livro e enxerga algo transcendental tem sérios problemas de prioridade. Literatura é um meio de se atingir alguma coisa. Assim como religião. Assim como macarrão com molho. Como uma boa cantada pra cima daquela mulher gostosa no bar. Literatura não possui vaidade. Vaidoso (e panaca, por consequência) é o intelectual que pensa que sabe algo de concreto, que cospe citações e autores consagrados. A literatura não tá nem aí pra você; você é quem tem que se acostumar com ela. E isso deve acontecer por vontade própria.

Por essas e outras é que acho mais fácil falar de futebol e cerveja. São assuntos simples, corriqueiros, dispensam grandes retoques de pensamento. Ou se gosta de Heineken ou de Brahma. Ou se torce pro Olaria ou pro Manchester United. Faz-se comparações de gosto e de estratégias de defesa. Pronto, acabou. Passa-se ao próximo assunto, política econômica ou o último filme pornô da Flower Tucci, tanto faz. Mas literatura se desenvolve dentro de cada um a sua maneira. Não adianta forçar. Ensina-se o que é, dá-se alguns exemplos, depois vamos ver no que dá. Incentivar a leitura, sim, impor qual seria a mais adequada é um problema. E por isso jamais será unanimidade em qualquer lugar.

Quase metade dos brasileiros não costuma ler, 30% nunca comprou um livro sequer. Muitos dizem que não leem porque livro é caro no orçamento familiar, ou que não encontram tempo: duas das desculpas mais esfarrapadas possíveis. Leitura e literatura são acessíveis a praticamente todos que possuem pelo menos um celular. Brasileiro é preguiçoso, mesmo. Brasileiro prefere futebol e cerveja. Alguns vão começar a ser fãs da Flower Tucci, agora que eu falei nela.

Mas literatura, ah, literatura é outra coisa. Não sei quanto a você, mas é meu enorme bicho estranho de estimação.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Os Fogos

Os fogos explodiram nos
teus olhos
enquanto a sombra da
vida mancava
dura pelo cais.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Dunas de Sonhos Não Fazem Castelos de Aço

dunas de sonhos não fazem castelos de aço.

escombros de livros e filmes de amor só
entopem o tempo
nas entrelinhas.

montanhas-russas explodem lentas dentro do homem
que se esquece
feito um parangolé molhado se desfazendo na avenida.

dunas de sonhos não sonham castelos de aço.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Enquanto Ela Não Chega

as plantas do jardim secaram.
as plantas do jardim se foram com o sol e as estrelas
por trás das nuvens plenas de chuva e ranço.

existe uma melodia finíssima no final da rua.
trespassa o coração do velho que mira o céu tão negro
pelas nuvens carregadas de amor e ácido.

o sexo que empesta paredes
não cala a solidão
que se encolhe à espera do ônibus no aguaceiro.

uma palavra muda escorre em algum lugar.

existe um poema intumescido atrás dos móveis.

(ela foi embora e ainda não voltou.)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Especial Para Cigarros

(publicado no jornal eletrônico O Parazão Hebdo)

— tenho que ir pra casa, baby. tá ficando tarde.

Ela fez cara de muxoxo.

— então tá. mas vai com cuidado, coração.

Deu uma última amaciada nas ancas fartas da Lívia, que saiu dando risinhos dentro da minissaia e se fazendo de bem-comportada. Safada essa daí, pensou enquanto procurava as chaves. Ainda vou pegar de jeito.

Tinha de chegar logo em casa, onde Marinalda o esperava. Provavelmente com pouco bom humor. Ele tinha dito que chegaria antes da meia-noite, e precisava de pelo menos meia hora até chegar ao conjunto residencial. Um dia desses deixo a Marinalda e parto pra outra. Mulher azeda, não sei que bicho mordeu ela nesses últimos anos. Tem várias outras por aí. A Lívia é jeitosinha e, pelo visto, gosta de um esquema bem bolado. Preciso me divertir, todo mundo precisa de vez em quando. A Marinalda é que escolheu usar aquela cara de merda quando acorda e quando vai se deitar.

Decidiu que deveria acelerar o máximo que pudesse dentro do bom senso. Bem lá no fundo, sabia que havia um serzinho da consciência procurando uma brecha no meio daquele cérebro embotado pra lhe dizer que o bom senso ficara em casa, antes dele sair pro trabalho pela manhã.

— que se dane.

Quase nenhum carro à vista. Pôde até mesmo cortar alguns sinais vermelhos, assim economizava tempo. Destino: Conjunto Stelio Maroja, Ananindeua. Muito chão pra correr. Iria pela Avenida Centenário, como sempre fazia. Àquela hora não adiantava inventar rotas.

Mais um sinal vermelho cortado, enquanto pensava na vida, ou pior, em Marinalda. Aquela mulher vai me fazer criar cabelos brancos, já tô até vendo. E olha que não tivemos filhos. Melhor assim, já imaginou o tamanho da encrenca? Tudo, menos filhos com a Mari. As trepadas eram boas no começo, mas então ela quis me mudar. Disse isso na minha cara: eu vou te mudar, pra tu seres o homem que tens que ser. Que diabo de papo era aquele? Ah, pra cima de mim, não.

Aos poucos foi relaxando. Deve ter relaxado até demais.

Não soube explicar os detalhes. Quando abriu os olhos de novo, o carro já começava a raspar a mureta do canteiro da Centenário. O veículo subiu os pneus do asfalto e a capotagem se deu. Girou seis vezes antes de parar de ponta-cabeça.

Incrivelmente saiu sem qualquer arranhão. Estava tonto, chegou a cair de bunda, mas se escorou na lataria e se pôs de pé. Procurava processar o ocorrido e ouviu ao longe um zunzunzum. Pessoas acendendo as luzes de casebres, juntando coisas ao longo da via. Gente gritando e se amontoando tal qual moscas em carniça fresca.

— carro capotado, galera. barricada, bora fazer barricada.

— taca fogo nos pneus.

Uma viatura encostou alguns minutos depois. Um policial se aproximou para averiguar o estrago do acidente.

— o senhor está bem?

Ele fez sinal de positivo, enquanto o oficial lhe fazia algumas perguntas de praxe.

— qual o seu nome, senhor?

— francisco vieira.

— e essa turma fazendo protesto aqui ao lado?

— não faço a menor ideia. agora fazem isso por qualquer motivo. virou moda.

O policial coçou o queixo e logo liberou Francisco, que passou seus dados e foi procurar um táxi.

Quem sabe, chegando detonado em casa, Marinalda lhe desse um desconto, talvez lhe fizesse uns carinhos. Só que a imagem que vinha à mente era das ancas da Lívia. Aquela safada.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Unhas, Um Monte de Unhas

Tem coisas que nos incomodam mais do que outras. Todo mundo está de acordo com isso. Só que eu não consigo escrever muito bem de unhas compridas. Parece que minhas forças, minha disposição diminui com o aumento das minhas unhas. Algum tipo de proporção inversa.

É uma besteira, sei bem. Mas qualquer pessoa possui algo de besta consigo mesma. Existem aqueles que se incomodam demais com o fato de o bife não estar bem vermelho, por falta de colorau. Meu pai é um desses. É outra besteira, colorau nem tem gosto que se sinta direito na língua, mas ele não admite bife no seu prato sem aquele vermelho suculentamente chamativo. Eu não já não faço questão de algo desse tipo.

Mas ter as unhas compridas é algo que me deixa minado no meu trabalho de escrevinhar através de teclas. Neste momento falo disso porque me esqueci de cortar as unhas das mãos, e agora está sendo meio sufocante digitar essas palavras. Notei esse pequeno empecilho outro dia, mais especificamente anteontem, enquanto escrevia um novo conto. As primeiras oitocentas palavras saíram, mas demoraram a se estruturar da maneira como eu queria. Já escrevi histórias bem mais rápido.

Unhas compridas são mais úteis quando são inúteis. Pegou o espírito da coisa? Quando não passam de mero acessório estético. A não ser pelo fato de, em você sendo um violonista clássico, que necessita de unhas compridas em uma das mãos para dedilhar as cordas do instrumento, enquanto a outra, que produz as notas e os acordes, deve apresentar unhas bem cortadas. Penso que este seria o único fator realmente útil para se cultivar unhas mais longas.

Mulheres, não sei bem se por gosto pessoal ou por imposição social (a maioria, eu diria, segue a imposição), são usuárias contumazes das unhas compridas: ao natural, pintadas com esmaltes de cores diversas, com base transparente, com desenhos personalizados, roídas, lixadas, com tinta descascando, sensuais, recatadas, até mesmo depravadas. Vale de tudo, basta olhar pelas ruas, dentro do supermercado ou do restaurante. Se é que você mesma não costuma seguir algum desses estilos. Talvez todos eles. Variando de semana a semana, de humor a humor.

Eu, quando estudei por um tempo violão clássico, sentia a obrigação de ter as unhas compridas da mão direita. Sempre fui meio relapso para treinar as escalas, os acordes, por isso as unhas longas não duraram muito. Além do mais, era muito estranho manter unhas daquele tamanho em apenas uma das mãos. Eu me sentia um ser bastante bizarro. Ainda me sinto, mas é por outras razões, não vem ao caso. E meu violão está, no presente momento, sistematicamente encostado na parede.

Daí que me acometeu de sentir um incômodo quando as unhas crescem demais. Certo, preciso me policiar quanto a isso. E não, não tenho certeza de que o incômodo surgiu das práticas com o violão. Apenas digo que escrever, para mim, implica ter as unhas bem aparadas. Nada de excessos. Puramente o básico. Como o ato de revisar e revisar e terminar por cortar o supérfluo numa frase e num texto inteiro.

Quando voltar para casa, a primeira coisa a fazer será entrar no banheiro e pegar a tesoura de unha. Não uso cortador de unha. Não nutro simpatias por cortadores de unha. O que também, aqui, não vem ao caso.

sábado, 3 de outubro de 2015

Bolinhas de Gude

Infância é um negócio difícil para os outros. Pra molecada, não é nada complicado. Acordar, comer, brincar, ir à escola, brincar, comer, nos intervalos ir ao banheiro lavar a cara e fazer cocô. Mas às vezes, haja paciência.

— não senta aí, garoto.

— por que não?

— porque eu tô limpando o sofá, num tá vendo?

— mas por que precisa limpar de novo?

— porque sim.

— por quê, porque sim?

— menino, vai procurar teus amiguinhos, vai.

Isso foi a infância de muita gente, de procurar os amiguinhos, principalmente antes dos anos 2000. Atualmente, se falar pruma mocinha ou prum mocinho que eles têm que sair pra rua, é bem capaz de eles olharem para você como se olhassem um alienígena com dezenove olhos, trinta braços e vinte e sete bocas. Tudo pintado de marrom-vômito purpurinado. Hoje, bom, hoje praticamente não existe vida social pra qualquer espécime infantil que não seja a virtual, através de teclas e telas de alta definição. E tem gente que ainda se assusta ao ver crianças com quadro de obesidade mórbida e diabetes tão cedo.

Como a infância de hoje é uma chatice só, vamos falar dos anos incríveis: praticamente qualquer um antes da virada do milênio.

O Diogo, uma vez, atendendo ao pedido dos pais de ir brincar fora de casa e deixá-los em paz por alguns minutos, foi procurar o que fazer. Não encontrou nenhum dos amiguinhos do quarteirão, então ficou chutando algumas latas vazias que encontrara perto de uma vala.

Aliás, um aviso rápido: se você pensa que deixar seus filhos dentro de casa, com medo de tudo, resolve a vida deles, pense então por que será que a maioria dos pirralhos da última geração desenvolvem alergias e doenças tão cedo. Falta de joelhos ralados e um pouco de valas, é o que eu sempre digo.

O Diogo chutava as latas, mãos nos bolsos do short, e já imaginava o que iria montar com elas — um caminhão de quatro eixos com barbante, quem sabe, ou talvez arrumasse umas bombinhas pra estourar dentro delas, fazendo-as de foguetes customizados — quando avistou três, não, quatro bolinhas de gude ali perto. Teve que olhar pros lados e se certificar de que não era uma peça que estavam lhe pregando. Não se achava bolinhas de gude assim, dando sopa ao lado de uma vala. Os campeonatos da rua eram muito disputados, todos cuidavam bem das suas bolinhas.

Ou ele tinha conseguido a sorte grande, ou foi uma tragédia para algum moleque da vizinhança.

Não quis saber de moleque nenhum. Pegou as preciosidades do chão e saiu em disparada. Começou a gritar no meio do caminho pela mãe e pelo pai, que saíram com certa apreensão de dentro da casa.

— mas o que foi, menino?

— se machucou, tá doendo onde?

— mãe, olha só o que eu achei.

O garoto estendeu a mão triunfante. Os dois se aproximaram, e logo em seguida o pai começou a rir. O Diogo não entendeu, mas ainda mostrava um sorriso de contentamento.

— meu filho.

— quê, mãe? não é legal?

— isso são bolas de bosta de cachorro.

— eu vou brincar com elas agora mesmo.

— garoto, me escuta. isso são bolas de bosta de cachorro. joga fora e vai lavar as mãos.

O Diogo deixou cair suas bolinhas de gude e saiu chorando, com a mão estendida o máximo possível do corpo, como que contaminada pela peste. E aquele cheiro, ah, aquele cheiro entre os dedos.

Falta muito mais bosta de cachorro pras crianças de hoje, disso não tenho dúvidas.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Mambembe

O escarro da criança ficou no meio-fio. As nuvens se encheram de luz e formas. A ratazana passou ligeira na calçada. O vendedor de coxinhas de frango de ontem vendia coxinhas de frango de ontem. O vagabundo criava literatura de bordel. A velhota sorria e pensava em analgésicos. O suicida cantou que every little thing is gonna be alright. O gato rezou na peixaria. O professor transpirava feijoada e solidão. A batida ecoou pela quadra inteira. A carcaça da criança ficou no meio-fio. O vendedor de cozinhas de frango de ontem derrubou a maionese de ontem. O vagabundo sugeriu linchamento e sodomia. A velhota acenou e chupou bala de menta. O suicida correu de olhos vidrados. A ratazana voltou ligeira na calçada. As nuvens incharam de ansiedade. O gato rezou na peixaria. O professor fugiu na contramão. A morte mambembe acendeu o cigarro.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Ensaio de Abjeção

um sujeito do nada vem com um sorriso
uma garrafa na mão e diz que
vai se sentar conosco à mesa. até aí
tudo bem.
começa a falar de um evento autossustentável que
programou numa universidade
coisa e tal
uma história qualquer de cultura
coisa e tal

pede nossos contatos porque
somos escritores
daí nos pergunta se
somos católicos. não entendemos
a pergunta e respondemos que
somos agnósticos

ao que ele rebate revelando que
é rosa-cruz
coisa e tal e nós num exercício mental
“mas que merda de papo é esse?”
“quem é o figura?”
“isso não parece que vai acabar bem.”

o sujeitinho pega meu maço de cigarros da mesa
sem pedir e pega um cigarro e o meu isqueiro
continua sem proferir bosta alguma enquanto comete
o ato
observamos a palhaçada pra ver até
onde iria dar e o sujeito que agora
já passou
a ser um idiota na nossa opinião
destila petulância e ares superiores porque

é um bosta de um rosa-cruz

nos mostra alguns gestos secretos
fala sobre o cosmos e a importância da sua
posição naquele grupo fechado. continua

sendo um bosta e um idiota de um rosa-cruz.

observamos ele pegar outro cigarro
do maço
eu fico bestificado
meu amigo se irrita e dispara
“cê não vai sequer pedir por favor?”
o outro me esgarça um sorrisinho cínico e diz
“obrigado”
só isso imagine
“obrigado”

pergunta se pode nos telefonar no
dia seguinte

meu amigo já está cuspindo fúria
eu respondo que tudo bem
sabendo que não atenderia
a ligação porque
não atendo números desconhecidos. depois
meu amigo comentou que minha
reação foi muito
educada. penso que estava cansado.

fomos
a outro lugar para beber e criar uma história sobre
miséria violência perdão.

passamos num supermercado aberto
após a meia-noite
na entrada um homem muito
magro boné sujo
pediu algo pra comer e tinha
uns olhos abatidos
uma barba abatida
umas unhas abatidas
enquanto só queríamos
comprar mais cigarros.

cigarro ali não tinha mas
o homem
do boné sujo
das unhas abatidas
ganhou
um salgado de calabresa e
uma torta de frango suculenta.

porque bem lá no fundo que vá
à merda o papo e
o garoto
da rosa-cruz.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Onipresença blues

a menininha tomou sorvete, lambuzou
a roupa de domingo.

uma estrela a dez mil anos-luz explodiu e os teus olhos
não verão o arrebatamento
desta morte.

a folha seca caiu no colo
da criança que brinca com o mundo inteiro e
alguns insetos.

o bafo podre exala
pelos dentes podres de um poeta esfomeado.

os cães disparam, defecam felizes entre os carros.

um suicídio acabou de acontecer
atrás da porta.

as calçadas carregam rachaduras, amores,
histórias repetidas.

aquele garoto ganhou o primeiro fora
do resto
da sua vida.

uma canção delicadamente
suja
espanca
as paredes da sala.

tua mágoa é minha mágoa,
teu sorriso é um pacote no meu bolso.

tem contas atrasadas sobre a mesa de jantar.

o silêncio brota na poeira condensada
dessas unhas,
dentro das revistas descartadas.

o carteiro não apareceu hoje.

amanhã pode ter feijoada com farofa.

alguém acabou de morrer sozinho numa cama de pulgas.
alguém acabou de nascer no chão imundo de um ônibus.
alguém acabou de se espatifar num poste.
alguém acabou de estender a mão suada.

o universo ainda pode
aprender a nos suportar aos pouquinhos.

sábado, 8 de agosto de 2015

Os lutadores

(publicado no jornal eletrônico O Parazão Hebdo)


A porrada era seca. Ninguém se metia no assunto deles, tinha mais era gente apostando quase com tanta garra e peso quanto aqueles dois. Gritos, uivos, palmas, brega tocando nas caixas de som, um pouco de tudo no cais do Ver-o-peso. Cheiro de peixe e de cerveja choca. Cestas abarrotadas de açaí, alguns comendo pupunha cozida àquela hora mesmo. Outros até continuavam a assistir à novela na tevezinha ajeitada por cima de um dos balcões que serviam coca-cola com coxinha frita pela manhã, sem se importar com nada que acontecia às costas.

— toma, filhadaputa.

— pois eu aposto uma Pitú inteirinha, muleque. vai dar o Zé Galo nessa merda.

— vai dar é porra nenhuma. o Zé Firula vai levar a melhor.

E dá-lhe mais gritos de pega, toma, mete o cacete. Os pescadores mais afoitos faziam roda para os Zés não saírem derrubando os carregamentos em volta do espaço aberto.

— ei, dá uma olhada nas minhas caixas que eu vou ali pra ver direito essa história.

Galo desferiu um soco bem em cima do olho de Firula, que cambaleou para trás cuspindo um filete de sangue nas pedras do calçamento. A cada acerto, fosse de qualquer um dos lados, a gritaria aumentava. A briga era boa, equilibrada, e não era tão frequente naquele local. Por isso tamanha empolgação por parte de quem acompanhava a dupla se surrando.

Nenhum dos presentes sabia dizer com certeza o que motivou a disputa entre eles que, inclusive, eram amigos de longa data. A dona Jeusa achava que tinha ouvido o Firula falar algo sobre a mãe do Galo. Já Paulão da Toca afirmava, coçando a cabeça de cabelos ralos, que o lance era por uma dívida antiga, e que o Firula se cansou de cobrar do outro, então resolveu acertar a conta com juros ali mesmo. De qualquer maneira, o espetáculo agradava o povo, que vinha labutando desde bem cedo no cais. Um espetáculo para esquentar um pouco o sangue nas veias.

Firula se aproximou e deu rasteira bem dada, fazendo Galo desabar de bruços, como um saco de sarja cheio de arroz. Pequeno golpe surpresa que aprendera na capoeira que praticava desde garotinho. Aproveitou o momento para montar no peito de Galo e desferir uma série de murros no rosto de Galo, que buscava se esquivar para lá e para cá, sem sucesso. Teve espectador que já queria apartar, outros incentivavam aos berros. Dona Babé aumentou o volume do brega no sonzinho em seu balcão de venda. Eram dois lutadores bons, mas vencedor só pode haver um, como todo mundo sabe. Ninguém gosta de empate.

Zé Firula se levantou, o corpo escuro brilhando de suor debaixo das luzes, os punhos cheios de sangue do amigo. Um dos pescadores dividiu a grana das apostas com ele, várias notas de dois, cinco e dez amassadas de tanta vibração. Aquele que tinha apostado a Pitú passou a garrafa, que Firula virou na boca com uma grande golada.

Afinal, a polícia chegou para azedar a situação, daí que muita gente se fingiu de desentendida. Os oficiais perguntavam, o mais moço até ameaçava um e outro trabalhador, mas obtiveram apenas palavras desencontradas. Enquanto isso, os Zés sumiram, nenhum dos presentes viu por onde foram.

— e aí, Galo, quanto tu tem contigo?

— tu sabe que eu tô zerado. isso tudo foi pra quê, diabo?

— então umbora beber na Tamandaré, que é o que a gente faz de melhor hoje.

Zé Galo pegou a branquinha da mão do companheiro e fez cara feia quando o álcool queimou as feridas na boca. Era bom demais.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Um toque

Verônica me disse que eu devia crescer, ser mais maduro. Que eu devia parar de ser tão egoísta, egocêntrico, brutamontes, radical, tão eu. Disse isso sem tirar os olhos do smartphone e fazendo biquinho para a foto. Eu disse que ela devia parar de ser tão imbecil, tirando autorretratos imbecis, que teima em chamar de selfies, a imbecil. Ela não gostou, mas não fez biquinho. Pela primeira vez, Verônica fez o que alguém sensato faria: me aconselhou a ir plantar batatas, balançou com graça os cabelos e guardou o telefone na bolsa. Eu sei que depois irá tirá-lo da bolsa novamente, entrar no facebook para dar os detalhes de como sou estúpido, insensível, grosso, brutamontes, egocêntrico, egoísta, a ladainha inteira. Que era por isso que eu ficava sempre sozinho. Provavelmente Verônica vai esquecer que também não tenho paciência com futilidades ambulantes. Depois dou esse toque pra ela.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A fotografia dos corações esquálidos

Entendo que o dia talvez comece uma tremenda
porcaria para muita gente acima do nível do mar
e que as brisas parem, às vezes, de soprar a desesperança
para longe dos vícios e dos olhos cheios
de remela
de um cansaço infindo

mas talvez
(um milésimo de talvez do tamanho de um grão de areia)
seja assim porque as cores do arco-íris já ficaram
desbotadas, ressequidas, cobertas de chagas humanas
e ninguém se apercebeu desse detalhe até
          agora
          e agora
você olha pro final da chuva
          agora você
decide encarar o sol de frente, nariz para o alto
sugando o que puder aguentar nos pulmões:
cheiro de terra, de barro, carbono decomposto, corpo vivo

essa substância que deveria invadir sempre
pelos poros
atacar o cerne impetuosamente
devastar o vazio inteiramente
até exterminar nosso último enredo de destroços íntimos.

Mas talvez
(um pequeno, raquítico talvez atrás dos móveis)
não seja o bastante e
por mais que se regue e
por mais que se dance e
lhe ofereça a palavra certa
apenas talvez
esse arco-íris permaneça numa fotografia de corações esquálidos.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Os cidadãos de bem

BR-316, pouco antes das vinte e uma horas, voltando para casa no domingo. O trânsito começa a ficar lento, até quase parar. Na pista contrária, luzes de viaturas de polícia, aglomeração de gente curiosa. Incrível como quase todo mundo é curioso pela desgraça alheia. Porque com viaturas e enxeridos, só pode ter acontecido desgraça.

Eu querendo chegar logo, tomar um banho, ler cinco ou dez páginas de um gibi antes de dormir, e os motoristas diminuindo a marcha para apreciar a merda de alguém. E iria reclamar com quem sobre isso? Não tinha escolha, precisava ficar preso entre as filas no asfalto.

Não sou de apreciar a má sorte de estranhos. Isso que eu chamo de bicho-homem tem uma mania sinceramente cretina de espiar a vida do vizinho pra ter o que comentar na hora do jantar ou durante o intervalo do jogo de futebol. Pra ter o que falar nas redes sociais, pra ter do que se gabar pros amigos. Se gabar?, você pergunta. É, se gabar, como se falar da miséria de um estranho fosse o ponto alto da semana para essa criatura.

E se tirarem fotos e gravarem vídeos nos celulares, melhor ainda, terão a prova definitiva.

Por isso, quando avistei as luzes de uma das viaturas ainda ao longe, não me empolguei. Nem mesmo me interessei pelo que quer que tenha acontecido. Não saí em busca de notícias de algo fora do normal na rodovia. Se bem que, ultimamente, o normal é acontecer alguma merda qualquer na rodovia, mas isso seria para outro texto.

As outras pessoas, sim, as outras pessoas faziam questão de verificar com calma e curiosidade a cena. Como se não bastasse a enxurrada de más notícias todos os dias, todas as horas, por todas as esquinas.

Mas, você diria, isso se trata de empatia pelo próximo, de querer saber o que ocorre para ajudar. Empatia, você diz, e eu olho pra sua cara com uma vontade imensa de rir. Você e os que compartilham dessa desculpa mais do que esfarrapada não entendem o que é empatia. Também não me venha com a história de compaixão. Tudo pode ser em um momento como esse, menos empatia e compaixão. Essa atitude não passa de cretinice pura e simples. Ou para quem não entendeu: de um prazer mórbido disfarçado de espanto. Como escrevi uma vez num poema, as pessoas precisam cuidar umas das outras, mas não atrapalhem quem realmente ajuda, muito menos enalteçam a tragédia e a merda do próximo.

E os mesmos cretinos e cretinas que enaltecem a tragédia e a merda do próximo são os mesmos e as mesmas que se dizem cidadãos de bem. Porque todo mundo é cidadão de bem, é uma equação simples e furada. Não importa a classe social, o quanto possuem de grana nos bolsos ou o tamanho da casa onde moram, isso não pode ser jamais atitude de alguém de bem.

Veja só como o esquema parece funcionar. Você aprende que matar é errado, que roubar é errado, que estuprar, que atropelar é errado. Porém, quando sabe que qualquer dessas coisas aconteceu com alguém, corre pra beira da pista ou pro boteco ou pro quinto dos infernos a fim de registrar o fato. Porque é errado, mas é divertido pra cacete. Em bom e claro português: você é o mesmo tipo de pessoa que reclama de deus e do mundo, mas sempre quer fazer uma festa quando alguém se fode. Você é o mesmo tipo de pessoa que se considera de uma integridade inabalável, e no entanto adora ver sangue espirrando, porque é muito bacana e, mais importante ainda, porque não é o seu.

Admita de uma vez que você é um(a) carniceiro(a). Seja sincero(a) consigo. Faz parte da cretinice querer passar uma boa imagem. Mas ponho minhas fichas na mesa: qualquer sinceridade é mais nobre, além de menos feia, do que a boa imagem de um(a) cretino(a).

Depois de passar pelas viaturas, o trânsito voltava ao normal rapidamente, passávamos todos a correr normalmente pela pista. A curiosidade deve ter passado, dando lugar à pressa de chegar logo pra não perder a programação do Fantástico, o diabo da sua revista eletrônica no diabo da rede Globo.

Cidadãos de bem o meu rabo, se você quer saber.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Ônibus

Pegar um ônibus em uma rua movimentada, com cheiros densos de catinga e
[perfumes carregados sob o sol da tarde,
bem poderia ser um poema lírico.